Você já pensou em se tornar um imortal digital?

O que sua família e amigos acharão de interagir com "você digital” para pedir conselhos pessoais e profissionais?


Pode parecer arrepiante, mas o pesquisador e empreendedor da Ryerson University Toronto, e docente visitante no Media Lab do MIT, Hossein Rahnama, está criando um “avatar digital”. Rahnama acredita que será possível abraçar a vida digital após a morte e está criando um aplicativo chamado Augmented Eternity.


O aplicativo permite que você crie uma persona digital que pode interagir com as pessoas em seu nome depois que você morrer. A premissa do projeto é que nas próximas décadas, a medida que continuarmos a criar nossas pegadas digitais, a geração milênio gerará dados suficientes para torná-la viável.


O Facebook é um exemplo disso, cerca de 1,7 milhões dos seus usuários morrem a cada ano. As contas online de algumas dessas pessoas são apagadas, mas a de milhares de outras permanecem em silêncio perpétuo. São gigabytes de dados produzidos diariamente que poderiam ser processados, armazenados e analisados por algoritmos inteligentes de aprendizado.


Claro que ainda não se chegou a uma solução finalística. Se já é difícil criar agentes de software que possam realizar uma conversa natural, imagine capturar a personalidade específica de uma pessoa. O pesquisador afirma que ainda não há software que possa interagir, comunicar e tomar decisões como um humano faz. Assim, no mundo empresarial, por exemplo, o avatar do CEO será uma "ferramenta de apoio à decisão", mas não será capaz de administrar a empresa, pois a Inteligência Artificial (IA) ainda carece de contexto. A maioria dos chatbots simplesmente oferece respostas com base no conteúdo de uma conversa, mas nossa comunicação muda dependendo de com quem estamos conversando, onde estamos e a que horas do dia a conversa ocorre.


A necessidade de incluir esse tipo de contexto foi a base para a empresa de Rahnama, a Flybits, iniciada em 2012. A Flybits fornece uma plataforma que permite às empresas adaptar suas comunicações aos clientes com base em pistas contextuais. Um banco, por exemplo, pode oferecer mensagens diferentes por meio de seu aplicativo para dispositivos móveis, dependendo do seu histórico de compras, da agenda do seu calendário ou se uma pessoa está andando ou viajando de trem.


A parte contextual foi algo que Rahnama considerou fundamental quando começou a Augmented Eternity. Para ele, se você for construir um “eu digital”, não é suficiente saber que alguém disse alguma coisa. Você precisa conhecer o contexto em que foi dito - a pessoa estava brincando? Irritada? Reagindo às notícias de hoje? Esses mesmos tipos de pistas acabam sendo cruciais ao compor uma personalidade digital, e é por isso que a plataforma Augmented Eternity coleta dados de várias fontes - Facebook, Twitter, aplicativos de mensagens e outros - e os analisa para o contexto, conteúdo emocional e semântica.


Um conceito semelhante foi usado anos atrás pela desenvolvedora de software russa Eugenia Kuyda que criou um chatbot de seu melhor amigo, Roman Mazurenko, que morreu no final de 2015. Kuyda fez o bot conectando as mensagens pessoais de Mazurenko a uma rede neural. Construído com o framework de aprendizado de máquina de código aberto do Google, o TensorFlow. O próprio bot, na opinião de Kuyda, não era muito preciso nem polido, mas, quando respondia a perguntas, muitas vezes parecia estranhamente ser o amigo dela.


Kuyda diz que a principal dificuldade ao tentar criar versões digitais de pessoas que não estão vivas é a complexidade da natureza humana. Somos basicamente como vinte mil personalidades de uma só vez. Por exemplo, seu amigo Mazurenko disse-lhe coisas pessoais que deveria ficar de fora de uma conversa com seus pais. Assim, ela podia consultar sua família e outros amigos para descobrir quais informações poderiam ser compartilhadas. Será que uma empresa poderia fazer o mesmo de forma realística?


Rahnama acredita nisso. Ele diz que Augmented Eternity dará um passo em direção a acomodar várias personalidades adaptando a conversa de acordo com o contexto e permitindo que os usuários controlem quais dados são acessíveis e para quem. Assim, um dia sua filha poderia consultar sua personalidade familiar digital, enquanto um ex-aluno poderia fazer perguntas a sua personalidade acadêmica. Ele vê isso como uma maneira de deixar um legado, de continuar contribuindo para a sociedade ao invés de se transformar num buraco negro.


Mas atenção, a inovação não é útil apenas para os mortos!


Não sejamos reducionistas, um avatar digital também pode ser útil enquanto você ainda está por perto. A Inteligência Artificial pode ajudar a transformar sua experiência profissional de um registro escrito disperso em uma representação de seu conhecimento com o qual as pessoas podem interagir. Assim, um advogado que cobra centenas de dólares por hora pode permitir que as pessoas consultem seu avatar digital, por um preço bem mais baixo. Celebridades, políticos e outras figuras públicas poderiam terceirizar parte de sua interação pública para versões digitais de si mesmos. Questões éticas e de cibersegurança estarão permanente na pauta.


Em outras palavras a Inteligência Artificial nos permitirá consultar especialistas com os quais nunca poderíamos nos encontrar na vida real. A capacidade de representar e compartilhar conhecimentos, diz Rahnama, pode contribuir para novos modelos de negócios na internet. Em vez de falar com uma “Siri genérico” ou “Alexa”, você poderia perguntar a um cientista eminente, um político ou um colega de trabalho. E por que participar de uma reunião de negócios quando você poderia enviar seu avatar?


A Eternime, com sede em Mountain View, Califórnia, é outra startup que se oferece para incorporar suas informações pessoais em um avatar inteligente que se parece com você, que viverá para sempre e permitirá que outras pessoas acessem suas memórias no futuro. Marius Ursache, fundador da Eternime, vem promovendo a ideia há anos, e mais de 40.000 pessoas se inscreveram na lista de espera da Eternime. A empresa, ainda autofinanciada, lançou apenas versões beta limitadas. Ursache acha que o problema é menos técnico do que comportamental, pois as pessoas não costumam investir muito tempo em atividades que serão recompensadas daqui a décadas.


Não resta dúvidas de que a imortalidade é um dos desafios da ciência e mexe com o imaginário humano de ser eternizado. A possibilidade de continuar um relacionamento com um familiar, bem como contar com um mentor profissional renomado é animadora, ainda mais se ele for personalizado em um avatar com suas características originais.


Você já se imaginou interagindo com o avatar de Steve Jobs e ele lhe dar dicas de empreendedorismo? Ou estudar física com Einstein e matemática com Newton? Você pagaria por isso? Possivelmente sim. O quanto pagar é a questão a ser discutida.


E como seria seu “eu digital”? O que você quer que seja? O que ele poderá contar a seu respeito? Pode ser um chatbot baseado em texto como sugere a Augmented Eternity ou uma voz de áudio como o Siri, um vídeo editado digitalmente, ou um personagem animado 3D em um ambiente de realidade virtual. Ou você deseja ser um robô humanoide?


Time Observatório:

Angélia Berndt

Camilie Pacheco Schmoelz

Danielle Biazzi Leal


Fonte: Courtney Humphries. MIT Technology Review, 2018. Acesso: <https://www.technologyreview.com/s/612257/digital-version-after->

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • LinkedIn - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco

Iniciativa da FIESC - Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina

Rod. Admar Gonzaga, 2765 - Florianópolis/SC - 88034-001