O Vigor da Retomada e a Indústria Catarinense


Pablo F. Bittencourt[1]

Marcelo Masera de Albuquerque[2]

Mariana Wik Atique[3]


Se todos pouparem não haverá consumo para estimular o investimento. Com essa noção o maior economista do século XX explicou a tendência à depressão que nossas decisões de consumo e poupança podem dar a um contexto de crise, como o que vivemos.


No contexto brasileiro atual, a crise revelou seu lado mais cruel, o do desemprego, com saldo negativo de 927,6 mil em abril. Nesse mês, mas também nos seguintes, a captação de poupança pelo sistema bancário foi extraordinária, indicando a nefasta contração voluntária do consumo a que se referia Keynes. Entre aqueles que não possuem conta em banco (cerca de 40 milhões de brasileiros – pasmem), a mesma tendência foi revelada por aumento da demanda por moeda física (nesse caso, utilizada para entesourar “debaixo do colchão”).


Como reflexo da contração do consumo caem os preços. Não por outra razão registrou-se deflação nos primeiros meses da crise. Some-se a isso juros internacionais cadentes e a credibilidade depositada na atual gestão das políticas fiscal e monetária, e ficará entendida a enorme queda da taxa básica de juros brasileira, a SELIC, atualmente a 2% a.a.


Mas não nos enganemos, nem mesmo esse juro estava sendo suficiente para impulsionar consumo e investimento (com exceção do setor de construção civil, para onde tem rumado grande parte da poupança da classe média). Dizem que o mesmo grande economista do século XX definiu a situação por frase mais ou menos assim, “você pode levar o cavalo (investidor) até o lago (diminuir o juro), mas não pode obriga-lo a beber a água (realizar o investimento)”.


Enfim, agir para estimular o consumo precisava mais do que juro baixo. Era preciso subsidiar o consumo. A intensidade (valor) e até a forma eram as incógnitas.


Nesse sentido, agimos! Com certo atraso, mas agimos. Na intensidade, os R$ 600,00 que pareciam pouco para substituir a renda média da população (em torno de R$ 1.200,00), foram entregues a muitos, cerca de 60 milhões de brasileiros. O exagero é reflexo de falhas, menos da burocracia estatal do que do caráter de certos brasileiros que deles não necessitavam. Mas isso é para outro artigo.


A boa nova é emenda melhor que o soneto. Esperava-se a substituição da renda que caíra vertiginosamente, obteve-se sua complementação. Isto é, a combinação de R$ 600,00 com índices cadentes de distanciamento social fez do auxílio emergencial mais uma complementação à renda da população trabalhadora do que um substituto.


O resultado foi uma poderosa injeção de consumo, capaz de reverter a tendência ao aprofundamento da crise, sobretudo pelo aumento da demanda por bens industriais, enquanto muitos serviços ainda enfrentam restrições ao funcionamento.


Como resultado, o paciente já se colocou de pé em julho, a economia brasileira gerou saldo positivo de emprego no mês, primeiro sinal forte de que o consumo e a renda poderão se manter sem a muleta do auxílio emergencial.


Esse contexto foi benéfico para economias industriais como a catarinense, não apenas pela competência empresarial para rapidamente se adaptar às novas exigências sanitárias aos processos produtivos, mas também pela alta diversificação da matriz produtiva, o que costuma compensar as dificuldades de uns setores com o desempenho de outros.

Ainda que a economia toda não tenha revelado recuperação m relação ao pré-crise, os gráficos abaixo indicam que a indústria catarinense vem puxando fortemente a retomada. Vejam que o faturamento de julho além de superior ao de fevereiro, primeiro mês antes da crise, já é idêntico ao mesmo mês do ano passado.


As análises por setor, realizadas pelo Observatório da Indústria da FIESC, já deram conta de mostrar que de um total de 22 apenas 3 ainda não apresentaram níveis de faturamento superiores ao pré-crise. E, para ao menos para o setor de confecções, um dos três, as notícias para o início de agosto já era animadoras, como ressaltou o presidente da FIESC à diretoria.


Se somarmos a isso, os elevados níveis de capacidade instalada da indústria e de indivíduos dispostos a trabalhar, além da tendência a manutenção do juro em níveis baixos e a correta decisão de manter o auxílio emergencial, concluímos que estão dadas condições fundamentais para uma recuperação econômica mais sólida nos próximos meses.


Seria ingênuo e exagerado acabar por aqui. A economia mundial passa por grande crise, marcada por elevada incerteza. Na verdade, se tirarmos uma fotografia da cena atual, provavelmente não encontraríamos indivíduos sorridentes. Veríamos muitos desempregados, descontentes com a queda da renda, outros preocupados com seus endividamentos (empresas, famílias e governo). Mas a vida é fluxo e não estoque, deve-se olhar o filme e não a fotografia. Das cenas últimas cenas que assistimos derivamos que as próximas serão melhores. A melhora do desempenho do emprego, não apenas na indústria, deverá ser uma delas.


Mas antes de acabar, um alerta. Não estamos prevendo um final feliz, pois esse filme não tem fim. Aliás esse pode ser apenas o começo de um novo episódio, cujo contexto se desenrola sob o pano de fundo de um elevado endividamento de empresas e governos em todo o mundo. A atuação da política econômica importa para manter a trajetória de crescimento. Estamos atentos!


[1] Prof. de Economia da UFSC. [2] Analista de Inteligência Industrial do Observatório da Indústria da FIESC. [3] Analista de Inteligência Industrial do Observatório da Indústria da FIESC.

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